Trabalho. Trabalho. Trabalho. Eu não consigo mais pensar em nada além de trabalho. Mesmo estando de férias há quase um mês, eu acordo e turmo praticamente todos os dias pensando na vida profissional que eu nem mesmo tenho. A idéia tornou-se uma obsessão. Eu sinto que vou enlouquecer a qualquer momento. É uma angústia constante, não passa, por mais que eu tente me distrair. Eu não consigo mais olhar para uma pessoa bem sucedida sem me sentir mal, sem invejá-la por ter se destacado. E eu nem mesmo sei bem porque isso está acontecendo. São tantos os motivos...
Tudo começou quando eu entrei na faculdade, há exatamente dois anos. No começo foi tudo muito lindo. Sabe, eu estava na tal melhor universidade do país e tinha passado direto. Imagine, eram todos aqueles parentes e professores me parabenizando por aquele
grande feito. O problema é que a ficha caiu rápido demais. Eu logo percebi que aquilo tudo não tinha valor algum. Afinal, eu não precisava simplesmente saber as coisas para conseguir um bom emprego! Não! Na verdade eu mal ia usar esse conhecimento. Eu tinha é que ser lider, motivada, sociável, profissional... tinha que ter boas idéias, tinha que ter contatos, tinha que ser "esperta"! Nada conseguiu me assustar tanto. Afinal, nem o tal conhecimento era fácil de se obter. As provas ficaram difíceis, os professores ficaram péssimos e eu logo percebi que não passava de uma aluninha medíocre no meio de toda aquela gente.
E o que fazer para deixar de ser medíocre? É claro! Observar o comportamento dos outros! E foi o que eu fiz... e fiz novas descobertas. Conclui que para conseguir o tal emprego eu deveria lotar o meu currículo de estágios, iniciações científicas e cursos. Tinha que falar inglês perfeitamente e provavelmente outra língua. Tinha que saber informática. Tinha que conhecer pessoas. Tinha que arrumar um estagiozinho para depois consegui um estágio bom e é claro, sair de lá com um emprego, porque era dificílimo conseguir algo depois de terminar a faculdade. Tudo bem, tudo isso talvez fosse possível se eu estudasse no período notuno, e não no integral! No meu caso, o jeito era cumprir créditos intermináveis e ainda conseguir notas ótimas para ter uma chance de passar disciplinas para o período noturno e trabalhar de manhã para encher currículo. Foi aí que apareceu a minha primeira grande questão: devo me tornar a profissional perfeita ou ter vida social? Era uma coisa ou outra. Escolhi obviamente, mas com muito sofrimento, a última opção.
Pois é, eu tenho uma vida social! Tenho meu grupo de bons amigos e um namorado excelente. Quase não assisto aulas e só estudo para as provas. Troco facilmente a faculdade pelo bar, pelo shopping, pela cama, pelo mp3, pelo carro, pelo parque, por qualquer coisa! Mas estudo. Minha média é
decente, nunca peguei DP, até dizem que eu sou uma boa aluna. Eu me divirto bastante, vivo até que bastante, mas nada disso diminui o meu medo do tal bicho-papão chamado mercado de trabalho. Afinal, eu não consegui me tornar popular! Não consegui gostar de jogar bola com as pessoas da faculdade. Não consegui achar aquelas baladas com bebida diluida a maior maravilha do mundo. Não tive vontade de fazer pate de nenhum grupo acadêmico, de ajudar em nenhum evento, de fazer trabalhos comunitários. A última opção que me restava era conseguir o tal estágio. E foi o que eu fiz.
Na realidade, o estágio surgiu em uma época bem complicada. A realidade é que eu gosto e detesto aquele curso. Eu gosto de química e biologia, mas não gosto de química e biologia 12 horas por dia! Eu simplesmente tenho pavor da idéia de passar TODO o meu tempo fazendo aquilo: manhã, tarde, noite, feriado, fim de semana. Eu amo estudar música, praticar o meu teclado, aprender línguas, cozinhar doces! Amo conversar com pessoas da área de Humanas... atores, músicos, publicitários, sociólogos, historiadores. Eu me sinto em casa com essas pessoas! E parece que a faculdade rouba todo o meu tempo. Eu não quero viver assim. Quase saí de lá duas vezes esse ano. Foram crises grandes mesmo. Na primeira eu resolvi vencer meu medo de chefes e procurar um estagiozinho lá mesmo. Era a minha última chance! Ia fazer o que tinha me levado até aquele curso: pesquisar na área de bioquímica e biologia molecular.
E o que aconteceu? Foi uma catástrofe total! Eu sobrevivi àquilo por uns 8 meses. No começo foi bem interessante... foi assim até eu perceber como aquelas pessoas eram loucas. O pessoal trabalhava mais de 10 horas por dia, muitas vezes fim de semana e feriado em projetos que muitas vezes não davam certos! Eram tantas, tantas semanas perdidas, tantos erros, tanta pressão para conseguir os resultatos, tanto trabalho repetitivo. E eu ainda tive o azar de pegar um dos piores tipos de orientador: aquele que é educado, "cidadão de bem", trabalha o tempo todo, não tira férias e arruma um jeito bem sutil de te torturar lentamente e de te lembrar o tempo todo que sim, você não é nada mais que o estagiário. Foi simplesmente horrível. Eu saí de lá acabada, confusa, chorei muito. Aprendi lições, é claro. Aprendi a não mostrar para as pessoas erradas o que me incomoda, do que eu tenho medo. Aprendi a importância do tal
profissionalismo. Aprendi que não dá para levar todas as coisas para o lado pessoal. Aprendi que não se deve mesmo tentar ser muito amigo de colegas muito próximos de trabalho. E é claro, aprendi que detesto ser a estagiária, que detesto fazer o trabalho forçado, que detesto que abusem da minha ignorância.
Pois é, o tal estágio muito provavelmente foi o gatilho para toda essa ansiedade. Para mim foi um choque! Eu sempre tinha me dado super bem com professores, sempre tinha estudado, sempre tinha tirado notinhas boas, sempre tinha sido bem sucedida em tudo o que tentasse. Lá não deu. Eu fui criança demais, sentimental demais, fui quase um livro aberto. Não consegui me interessar por aquelas coisas, não tive vontade de ler aquela papelada chatíssima toda. E pior: descobri que a razão para eu entrar no tal curso havia sido um grande erro! O DNA era mágico só nos livros mesmo, não na prática. E é assim para biologia e química também... eu adoro saber aquilo, adoro fazer os execícios, mas odeio laboratório fedido e não consigo matar ratinhos.
O que fazer? Eu juro que não sei. Ainda não tive coragem de sair. Na verdade, nunca encontrei algo melhor para fazer. Eu não sei o que mais fazer. Eu não sou talentosa o suficiente para música, não sou ousada ou criativa o suficiente para a cozinha, não sou comunicativa o suficiente para o ensino. Por enquanto estou lá mesmo, mas não sei bem que decisões tomar. Às vezes eu tenho vontade de parar por um tempo e me dedicar a outras coisas antes de entrar de cabeça no mundo profissional. Essa provavelmente é a minha última chance. A única coisa que eu sei é que eu não vou ser nem fazer o que o tal mercado quer que eu faça. Eu passo 8 anos na faculdade mas não trabalho 12 horas por dia, sábado e finjo que estudo aos fins de semana. Não dá! Eu não amo aquilo, não quero viver para aquilo, não quero ser escrava daquilo. Eu só sei que ainda é difícil superar a minha primeira
derrota, o tal estágio. Eu me sinto uma criança por tudo o que aconteceu... me sinto tão despreparada. E devo mesmo ser. Afinal, foi a minha primeia experiência nisso tudo em meio há colegas que são bem mais velhos, alguns vindo de mundos completamente diferentes, outros muito bem acostumados com a vida real.
Pois é, o texto ficou gigante, nem vi o tempo passar. Eu só sei que a tal angústia sumiu por completo, pelo menos por enquanto. Ela volta, eu sei... só espero que ela não volte a me incomodar tanto como nesse último mês!