Por que eu estou saindo da minha faculdade e começando tudo outra vez? Preciso me convencer disso, preciso entender a minha decisão, preciso parar de sofrer...
- Eu finalmente aceitei minha família. Estou bem em casa. Não tenho pressa para sair, para ganhar dinheiro. Percebi que uma família unida nos ajuda a enfrentar o mundo com muito mais facilidade. Eu não preciso trabalhar para fugir da minha vida, para ter a "liberdade" que eu sempre sonhei. Preciso trabalhar para ter mais conforto, para poder comprar as coisas que meus pais não podem me dar, parar ajudar a minha família, para criar meus futuros filhos. Isso não precisa ser traumático.
- Meu desespero para me livrar dos meus pais era o que me fazia ser perfeita, era o que não me permitiu fazer um ano de cursinho, o que não deixava eu "perder um ano" com repetências, com viagens, com novas tentativas. Minha grande obsessão era trabalhar logo, desaparecer logo. Quando a obsessão deixou de existir, eu passei a me questionar sobre o que eu estava fazendo, a que tipo de vida eu estava me condenando, me senti presa a algo que não queria.
- Eu também superei alguns traumas. Cresci. Não preciso mais me esconder atrás de uma bancada de laboratório por medo de expressar minhas opiniões, de tomar decisões, de me comunicar com pessoas. Não quero ser a menininha tímida que prefere fazer algo insosso e repetitivo a arriscar cometer um erro. Não sou assim! Eu adoro o público, adoro um palco, adoro me relacionar. Tenho um certo medo, isso sim, mas isso não justifica abrir mão de tudo o que me dá prazer.
- Eu gosto de dinheiro! Sabe aquela história de que você deve ter felicidade e não dinheiro? Besteira! Quem não ganha bem precisa trabalhar muito para compensar. Quem trabalha muito quase não tem férias, fim de semana. Não tem vida social. Isso é frustrante! Sim, eu adoro dinheiro. Não precisa ser rápido. Eu só preciso da garantia de que, se eu for boa, eu posso ser minha própria chefe, eu posso ter autonomia, eu posso ter uma vida. Não quero virar uma vítima desse país subdesenvolvido que acha que eu tenho que aceitar qualquer empreguinho que me oferecerem.
- Eu não quero ser pesquisadora. Não mesmo! A pesquisa é linda. Eu entrei na faculdade porque queria pesquisar genética, biologia molecular. Tentei. Não gostei. É muito esforço, muito pouco resultado e muito pouco dinheiro. Você pode passar anos se esforçando em mestrados, doutorados, pós-doutorados, para no final não conseguir nada importante. Eu não tenho essa perseverança! Não sou masoquista o suficiente. Até faço pesquisa. Faço sim, quando tiver mais de 30 anos, um emprego feliz, uma boa casa e não depender daquelas bolsas horríveis de instituições públicas para me sustentar.
- Também não quero saber de indústria. Trabalhar para mim deve ser para um bem maior. Sabe, descobrir coisas para a humanidade, ajudar pessoas, entreter pessoas! Meu objetivo não pode ser apenas trazer o lucro para o meu chefe ao desenvolver algum shampoo que venda mais porque tem algum produto totalmente desnecessário! Também não quero organizar papelada, não quero supervisionar produção, não quero ficar atentendo telefone, não quero cuidar de economia, não quero vender nada, não quero! Eu não tenho o perfil, nem quero mudar o meu. Eu não sou líder, não sou persuasiva, não gosto de passar a perna nas pessoas, não tenho paciência para fazer o social, não nasci para isso.
- Uma razão óbvia: eu não gosto de laboratório! Aquilo me deixa irritada! Eu não sinto o menor tesão ao misturar um monte de coisas fedorentas, esquentar a massaroca, esfriar, filtrar, recristalizar, medir, pesar, ver se aquilo mudou de cor ou não. Também não quero ficar analisando fluidos humanos nojentos. Não quero nem saber quais são os melhores aparelhos, os melhores reagentes. Não quero negociar com vendedores. Não quero administrar laboratórios! Aquilo é lento, cansativo, solítário, repetitivo. Eu até faço bem, não sou ruim, mas me sinto uma inútil.
- Eu estou desesperada por cultura geral! Tudo o que eu mais quero no momento é sentar numa sala de cursinho cheia de pessoas de 17 anos que estão começando a realmente estudar matemática, história, geografia, literatura, etc. Eu quero aprender sobre o passado do Brasil, sobre a literatura chata do séculos passados, sobre a economia da China, sobre geometria e logaritmos, sobre as esponjas do mar! Quero ler livros, aprender gramática, passar no meu exame de inglês. Quero ter aquelas aulas divertidinhas, fazer amigos novinhos e despreocupados com o mercado de trabalho, procurar as festinhas perto do cursinho. Quero estudar como uma louca, quero um objetivo, quero conquistar algo difícil. Quero ser uma adolescente normal e responsável por um ano. Eu sinto falta disso.
- Eu odeio minha universidade. O curso é mal estruturado, as matérias são jogadas. Os professores não se conhecem. Você chega no final do curso e nem sabe para que áreas você pode ir. Não existe horário para os. As pessoas que repetem quinhentas matérias se dão melhor porque têm o tempo necessário para trabalhar. As aulas são péssimas, os professores são nojentos. Eu sempre adorei aulas, sempre mesmo! Foi lá que eu aprendi a trocar qualquer aula por um shopping center, por uma caminhada, por uma hora de sono, por qualquer coisa.
- Eu odeio MUITO meus colegas! Eca! Aquela sala de aula é desunida, cheia de panelinhas. As pessoas são neuróticas, frenéticas. Todo mundo sorri, finge que está tudo bem e sofre inventando horas para conseguir estágios ruins que vão encher seus currículos para, no futuro, alguma empresa aceitá-las. É uma competição estranha. Todo mundo parece robô. Ninguém acha certo descansar nas férias, trancar uma matéria porque a carga horária é insana. Viver para que? Família para que? O importante é se matar, é não dormir, é ficar lá se preparando para algo que ninguém sabe o que é. É uma pressão horrorosa! Até os professores fazem. E as pessoas são hipócritas, falsas. Minha sala tem umas 80 pessoas. Vou sentir muita saudade de 5, vou sentir alguma saudade de outros 10, quem sabe. O resto, eu quero que fique bem, bem longe de mim.
- Eu não quero trabalhar agora! Não estou preparada para isso. Não cresci mesmo nesse aspecto. Não quero começar a encher currículo, não quero ter estágios, cursos e tudo mais aos 22 anos. Eu não sou pobre, não preciso sustentar filhos. Eu tenho tempo! Não preciso entrar nessa corrida maluca agora, nem quero. Posso muito bem adiar isso, estudar, viver um pouco.
- Meus pais concordam com a minha saida. Meus amigos também. Minha mãe diz que não aguenta mais me ver chorando, tento pesadelos, me preocupando. Ela disse que nunca teve esse tipo de preocupação. Ela simplesmente estudava, passava nas matérias, fazia os estágios que eram obrigatórios e supervisionados. Ela se assusta ao me ver desesperada com o mercado de trabalho. Meu pai odeia meu curso. Ele disse que não faria aquilo nem pago. Um dos meus melhores amigos disse que eu acabei de me livrar de um "câncer". Minha mãe está feliz, ela vai pagar o cursinho com todo o prazer! Até meu namorado, que estava na minha sala de aula, prefere me ver longe dele durante o dia do que infeliz.
- Eu tenho outros planos! Também sei que sou boa o suficiente para alcançar meus novos objetivos. Passei anos pensando em uma alternativa para o que eu fazia. Tentei de tudo, quis ir para um monte de área de Humanas tentar fazer coisas para as quais eu não tenho talento algum. Não desisti delas. Quero aprender música, história, arte, literatura... quero escrever algo, quero tocar instrtumentos, aprender línguas. Só sei que isso não me convenceu. Posso muito bem ensinar linguas com todo prazer, mas preciso de planos mais grandiosos. Encontrei um, dífícil, longo, mas que me parece o perfeito desafio. E na falta de estágios e empregos, tenho papai e mamãe para me ajudar! Eu faria o que eles fazem.
- Eu estou feliz! Muito feliz! Parece que me livrei de um peso enorme, parece que finalmente voltei a ser uma pessoa normal. Minha mãe estava prestes a me mandar para a terapia. Eu só chorava, reclamava, sofria. Pensava em desistir de três em três meses. Foram provavelmente os piores erros da minha vida. Foi uma pressão desnecessária para a minha condição, para a minha idade, para a minha personalidade. Eu estou bem, estou calma, tudo voltou ao normal.
Será que tudo isso é suficiente? Deve ser.